Por que as magras dominam as passarelas?

Como um profissional de comunicação de moda, entendo que falar de moda é ampliar a discussão, além de falar sobre desfiles, lançamentos ou ‘tendências’. Ou seja, moda é muito mais do que ó óbvio.
Sem novidades, pouco antes das Semanas de Moda, alguns assuntos voltam a pauta, como ‘magreza excessiva’, ‘anorexia’, ‘porque o mercado não gosta de gordas’, entre outros.
A discussão desta terça-feira, primeiro dia da temporada Outono/Inverno 2012 do Fashion Rio foi a recusa de algumas marcas em trabalhar com Camila Macedo – mais conhecida como dublê de Luana Piovani, na série ‘A Mulher Invisível’. A justificativa seria o fato de a moça estar com o manequim 38 – uma vez que eles queriam o 36. Aí, surgiu uma sucessão de indignações nas redes sociais.
Por este motivo, preparei alguns tópicos sobre a eterna exigência de modelos magras para as passarelas.
Primeiro: este é padrão do mercado internacional. A concorrência é absurda, pois, é o único onde a mulher ganha infinitamente muito mais do que os homens. São valores tão acima de nossa realidade, que é melhor nem tocar no assunto. Com raras exceções, é uma carreira muito curta. Contam-se as modelos, como Gisele, Raquel Zimmermann ou Isabeli Fontana, que fazem sucesso, mesmo após 10 anos de carreira. Em nome desta realidade, estas mulheres entendem que, seu corpo e rosto é um produto. E este produto precisa se adequar ao mercado. Garanto: só questiona isto quem é de fora. Toda modelo é avisada sobre tudo quando começa a trabalhar.
Segundo: modelos sabem que para ter a mínima chance de entrar na ‘corrida do ouro’, precisa ter acima de 1.75 e manequim 36. É como se fosse o ‘bê-á-bá’ de uma iniciante. Corpo de modelo de passarela, contudo, é super magro, mas é genético. Até assusta, confesso, mas realmente é muito mais comum do que as pessoas acreditam. Porém, ao contrário do que muita gente acha, elas são saudáveis e se alimentam bem. Fora a época de desfiles, algumas até engordam um pouquinho, mas, a maioria das meninas sabe que, quando vão desfilar, precisa ‘secar’ e não tem conversa.
Terceiro: há alguns anos abriu-se uma janela para modelos Plus Size, que seriam moças acima do manequim 44. Descobriu-se, um rico filão. Surgiram campanhas e até Semanas de Moda específicas. Contudo, não se engane em achar que, fora de um nicho bastante específico, este padrão vai chegar aos panteões de cartas marcadas – que são Semanas de Moda de Paris, Milão, Londres, Nova York, São Paulo e Rio de Janeiro, digamos. Com raríssimas exceções, nenhuma marca quer vincular sua imagem ao público Plus Size. Eventualmente, alguma até coloca uma numeração maior nas lojas, mas não quer nem pensar em relacionar-se a isto. E isto acontece tanto lá fora, quanto por aqui.
Quarto: Há dois anos, quando me preparava para escrever um artigo sobre esta moda Plus Size, deparei-me com uma situação surreal, que mudou até o foco da minha pauta. Simplesmente as entrevistadas gordas afirmaram com todas as letras que não pensavam em ver editoriais com mulheres acima do peso, na Vogue ou ELLE. Elas se acostumaram a ver magras e gostavam de vê-las usando as últimas criações de moda. Comprovando esta questão… Quando fiz um editorial de moda com uma modelo gorda, uma amiga – também gorda quase gritou: ‘Nossa, mas ela é MUITO gorda!’ (Detalhe: minha modelo usava manequim 46!)
Quinto: Citando a questão das publicações de moda… Simplesmente as publicações seguem o mesmo padrão estético, pois o público que consume gosta de ver os lançamentos dos sonhos na mulher magra. Não adianta gritar, espernear ou fazer motim. Infelizmente, esta é a realidade! É o mercado do irreal, do sonho e da fantasia. Sendo assim, quando a mulher abre uma publicação de moda, ela quer encontrar aquilo que ela deseja para si – seja a roupa, o acessório ou o próprio corpo da modelo. É uma questão muito complicada em resumir, mas esta é a realidade e não vai mudar!
Sexto: anorexia é uma coisa, modelo magra, é outra. É uma doença muito séria, que acomete homens e mulheres de qualquer mercado de trabalho. Claro que existe no universo da moda, mas não é único espaço para isto. É um equívoco misturar este assunto com a questão da moda, pois, apesar dos pesares, conta-se numa mão modelos que morreram por esta doença.
(Colunista: Jorge Marcelo Oliveira)
Deixe um comentário

4 Comentários

  1. Paula

     /  20/01/2012

    Adorei a matéria!

  2. Elaine Luze Neto

     /  11/01/2012

    Um artigo muito bom e elucidativo! Toda mudança exige primeiro uma campanha específica de conscientização, Caso contrário, como você bem cita no texto, as próprias pessoas (em geral) não querem ver uma modelo mais “cheinha”, pois já estão acostumadas ao biotipo padrão das tops. E é assim que funciona…

  3. Amore, super saudades!!!!!
    Bjs

  4. Kaoany Valiati

     /  11/01/2012

    Arrasou como sempre, enfim alguém falou claramente sobre o assunto, beijos!

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s